Feixes dourados adentravam
o quadrado da janela e se projetavam no chão de cor de salmão resplandecendo o
jornal velho aberto na página de cruzadas preenchidas por um homem magricela,
nariz adunco, tez franzida e profundas marcas de olheiras. Sentado em uma
antiga cadeira branca de plástico, num quarto do segundo andar, ele se
recordava agora de um passado distante, naquela mesma ruazinha, em parte também
naquela mesma casa de dois andares, agora maltratada pelo tempo, com a parede
coberta de musgo e o portão de madeira corroído por cupins. Estava vazia. A
única coisa que ainda permanecia intacta era uma árvore grande que ficava na
calçada e se estendia até o telhado vermelho desbotado, sem folhas devido a
estação. Uma enorme árvore que de tão grande ameaçava cair. Erguia-se imponente
na ruela como um gigante imóvel. Suas raízes já rachavam a mureta de concreto
que a rodeava, mas os moradores da casa foram sagazes, há muito tempo, ao
conectar o tronco e a parede através de uma corda resistente. Aquela árvore
testemunhara tantas coisas: brigas, romances, segredos, afetos e desafetos, mas
sempre se mantivera impassível. Recostado agora no parapeito da janela, o homem
observava a rua banhada pelo sol matinal, rutilando o ambiente silencioso. Em
sua infância morara a umas dez casas de onde se encontrava e lá ainda havia
fragmentos de seu passado. Perambulava pela casa como que precisasse estar em
determinado cômodo para lembrar algumas coisas.
A rua começava a ganhar movimento; se assemelhava a um
formigueiro, onde as formigas operárias já se levantavam para carregar suas
folhas. Ouvia-se o roncar dos motores de carros de pequeno porte, e as crianças
enchiam a rua amontoando-se em grupos, como que planejando algo. Logo se
dispersavam e deixavam que uma delas, aparentemente o líder, conduzisse a
brincadeira. “Sim! Sempre há o líder, geralmente o mais velho! Isso atravessa
gerações”, pensava o homem, esboçando um sorriso. Essa organização infantil lhe
trazia à mente um episódio de sua própria: contava lá seus nove anos e adorava
as brincadeiras inventadas pelo mentor daquela turma, não era o mais velho, mas
inconscientemente transmitia um ar de chefe e todos o seguiam nas ideias.
Poucas vezes o contrariavam, mas quando isso acontecia ninguém conseguia
vencê-lo na argumentação e a coisa saía do jeito dele. Morava naquela casa que
tinha a árvore, na época com apenas um andar; era visto como o mais inteligente
e culto, e certamente ninguém resolveu questioná-lo quando ele decidiu que
havia qualquer coisa de mal-assombrado numa casa de portões de alumínio e
azulejo verde antiquíssimo, abandonada, na esquina. Havia muitas evidências da
presença de fantasmas naquela casa.
“Por que você acha que é assombrada?”
“Ora, o Matheus que já morou aí disse que na porta do
quarto há um formato de rosto. Escutava barulhos à noite. Sem contar que
ninguém fica nessa casa por muito tempo, já percebeu?”
A casa não parecia assustadora, ao menos por fora, mas a
ideia causava nas crianças um êxtase que fazia com que elas temessem algo de verdade.
O líder das brincadeiras queria levar isso a fundo, então reuniu a turma para
tirar uma prova real. À noite todos já estavam juntos, sem a presença de
adultos, que estavam ocupados fazendo a janta para já aparecerem nos portões e
berrar aos seus filhos: Venham comer. Dispunham, portanto, de pouco tempo para
provarem que a casa era de fato assombrada. O líder possuía em mãos uma vela
branca e longa, colada numa xícara; acendeu e caminhou da árvore de sua casa
até o suposto abrigo dos fantasmas, com um bando de crianças o seguindo,
maravilhadas. Um bramido rompeu o silêncio enchendo a todos de medo:
“VIRAM? VIRAM? A chama se apagou quando eu passei por
aqui!”
Isso causou uma mistura de sensações nas crianças; umas
ficaram tensas, outras assumiram uma postura cética, as mais religiosas já
faziam sinal da cruz ou coisa que o valha. Expedições foram realizadas mais
tarde, com muita cautela, a princípio, mas logo o medo foi perdido e a velha
casa comumente era uma fonte inesgotável de inspiração para o líder imaginar
jogos e brincadeiras. Mas o que realmente ninguém nunca soube foi que ele
assoprou a vela.
O homem voltou a si. Agora com uma expressão mais suave
continuava a observar a rua e as crianças, brincando, brigando, e o líder em
volta, arrumando, ordenando, desfazendo, criando. Decerto não funcionaria sem
ele, só pode ser isso, pensou. Na verdade, talvez funcionasse. O problema é que
o líder impunha tamanha autoridade que fazia com que os demais sentissem que
seu papel ali era essencial, insubstituível. Resolveu deixar a janela. Muito
provavelmente não se via pessoas naquela casa desde o dia fatídico, que fizera
os moradores da casa se mudar pra outro estado, então não queria que alguém o
visse. Desceu as escadas lisas e tomou o caminho da antiga cozinha em direção
aos fundos ajardinados. Um cheiro de mofo dominava quase todos os ambientes.
Viu uma pedra cravada no solo que preenchia uma espécie de banheira de concreto
e lembrou-se que representava o túmulo do cachorro. Era um cão gordo de raça
mista — pastor alemão e alguma outra — que implicava com qualquer um que se
aproximasse do portão da casa. Latia sempre que seu dono, o já não mais líder
das crianças, apresentava uma de suas crises que começaram na adolescência. Era
repentino; o ambiente parecia enegrecer e a atmosfera parecia tombar se
misturando aos latidos constantes do fiel cachorro. Enquanto seu amigo
afagava-o tentando consolá-lo e a si mesmo, sob o olhar de esperança e
desespero de todos. O homem ia com frequência à casa da árvore saber como ele
estava. Não é nada demais, sabia. Rezaria por ele. Não pode ser assim. Uma
semana antes havia pegado com ele um livro, vinha para discutir quando soube
que ele havia sido internado. Os olhos lacrimejantes da mãe pousavam sob o
homem, aliás, naquela época um menino apenas, com uma miscelânea de sentimentos.
O menino ia para fora e sentava-se na base da árvore a observá-lo das alturas,
punha a mão na face e a arrastava até os cabelos, semelhante ao que fazem as
personagens de novelas quando enfrentam um problema. Dali da calçada ao
hospital e do hospital ao velório. As lembranças o perseguindo implacáveis. O
vulto de memória se arrastando até ali onde estava agora, olhando por uma
última vez a casa. Não havia nada, somente as lembranças. As lembranças e o
inspecionar da árvore que só o poderia acompanhar até que ele cruzasse a
esquina e passasse a casa assombrada com uma certeza, como um sussurro de piedade da árvore: a vela fora assoprada.