sábado, 29 de dezembro de 2012

Diálogo

 — Hey, cara, vamos encher a cara de hoje até amanhã, já que o mundo acaba mesmo.
 — Amanhã cedo trabalho, desculpe.
 — O mundo acaba amanhã, cara, você tem que aproveitar a vida.
 — É preciso estar muito seguro da existência do amanhã para que se comece a aproveitar a vida quando alertam o fim do mundo. Não sou muito fã do método indutivo.
 — Como assim?
 — Foi preciso que um fim de mundo fosse divulgado para que as pessoas começassem a pensar na não existência. Quero dizer, a morte só vem às cabeças quando ela está “próxima” mesmo, como no caso do fim do mundo. E com essa consideração a respeito da morte, indubitavelmente ponderamos sobre a vida e tudo o que fizemos até o momento; assim, diante da morte evidente pelo fim do mundo, até as pedras saem gritando Carpe Diem. A questão é que o fim do mundo é possível a qualquer hora. O seu mundo pode acabar a qualquer momento. Então, por que exatamente começar a se preocupar com a vida somente quando a morte é em escala global? Eu venho pensando na morte há um tempo e por isso estou adiantado nessa cerveja em despedida da humanidade.
 — Eu só queria tomar uma cerveja, cara.