sábado, 29 de dezembro de 2012

Diálogo

 — Hey, cara, vamos encher a cara de hoje até amanhã, já que o mundo acaba mesmo.
 — Amanhã cedo trabalho, desculpe.
 — O mundo acaba amanhã, cara, você tem que aproveitar a vida.
 — É preciso estar muito seguro da existência do amanhã para que se comece a aproveitar a vida quando alertam o fim do mundo. Não sou muito fã do método indutivo.
 — Como assim?
 — Foi preciso que um fim de mundo fosse divulgado para que as pessoas começassem a pensar na não existência. Quero dizer, a morte só vem às cabeças quando ela está “próxima” mesmo, como no caso do fim do mundo. E com essa consideração a respeito da morte, indubitavelmente ponderamos sobre a vida e tudo o que fizemos até o momento; assim, diante da morte evidente pelo fim do mundo, até as pedras saem gritando Carpe Diem. A questão é que o fim do mundo é possível a qualquer hora. O seu mundo pode acabar a qualquer momento. Então, por que exatamente começar a se preocupar com a vida somente quando a morte é em escala global? Eu venho pensando na morte há um tempo e por isso estou adiantado nessa cerveja em despedida da humanidade.
 — Eu só queria tomar uma cerveja, cara.

domingo, 9 de setembro de 2012

Reminiscências

   Feixes dourados adentravam o quadrado da janela e se projetavam no chão de cor de salmão resplandecendo o jornal velho aberto na página de cruzadas preenchidas por um homem magricela, nariz adunco, tez franzida e profundas marcas de olheiras. Sentado em uma antiga cadeira branca de plástico, num quarto do segundo andar, ele se recordava agora de um passado distante, naquela mesma ruazinha, em parte também naquela mesma casa de dois andares, agora maltratada pelo tempo, com a parede coberta de musgo e o portão de madeira corroído por cupins. Estava vazia. A única coisa que ainda permanecia intacta era uma árvore grande que ficava na calçada e se estendia até o telhado vermelho desbotado, sem folhas devido a estação. Uma enorme árvore que de tão grande ameaçava cair. Erguia-se imponente na ruela como um gigante imóvel. Suas raízes já rachavam a mureta de concreto que a rodeava, mas os moradores da casa foram sagazes, há muito tempo, ao conectar o tronco e a parede através de uma corda resistente. Aquela árvore testemunhara tantas coisas: brigas, romances, segredos, afetos e desafetos, mas sempre se mantivera impassível. Recostado agora no parapeito da janela, o homem observava a rua banhada pelo sol matinal, rutilando o ambiente silencioso. Em sua infância morara a umas dez casas de onde se encontrava e lá ainda havia fragmentos de seu passado. Perambulava pela casa como que precisasse estar em determinado cômodo para lembrar algumas coisas. 
     A rua começava a ganhar movimento; se assemelhava a um formigueiro, onde as formigas operárias já se levantavam para carregar suas folhas. Ouvia-se o roncar dos motores de carros de pequeno porte, e as crianças enchiam a rua amontoando-se em grupos, como que planejando algo. Logo se dispersavam e deixavam que uma delas, aparentemente o líder, conduzisse a brincadeira. “Sim! Sempre há o líder, geralmente o mais velho! Isso atravessa gerações”, pensava o homem, esboçando um sorriso. Essa organização infantil lhe trazia à mente um episódio de sua própria: contava lá seus nove anos e adorava as brincadeiras inventadas pelo mentor daquela turma, não era o mais velho, mas inconscientemente transmitia um ar de chefe e todos o seguiam nas ideias. Poucas vezes o contrariavam, mas quando isso acontecia ninguém conseguia vencê-lo na argumentação e a coisa saía do jeito dele. Morava naquela casa que tinha a árvore, na época com apenas um andar; era visto como o mais inteligente e culto, e certamente ninguém resolveu questioná-lo quando ele decidiu que havia qualquer coisa de mal-assombrado numa casa de portões de alumínio e azulejo verde antiquíssimo, abandonada, na esquina. Havia muitas evidências da presença de fantasmas naquela casa.

       “Por que você acha que é assombrada?” 
    “Ora, o Matheus que já morou aí disse que na porta do quarto há um formato de rosto. Escutava barulhos à noite. Sem contar que ninguém fica nessa casa por muito tempo, já percebeu?” 
     A casa não parecia assustadora, ao menos por fora, mas a ideia causava nas crianças um êxtase que fazia com que elas temessem algo de verdade. O líder das brincadeiras queria levar isso a fundo, então reuniu a turma para tirar uma prova real. À noite todos já estavam juntos, sem a presença de adultos, que estavam ocupados fazendo a janta para já aparecerem nos portões e berrar aos seus filhos: Venham comer. Dispunham, portanto, de pouco tempo para provarem que a casa era de fato assombrada. O líder possuía em mãos uma vela branca e longa, colada numa xícara; acendeu e caminhou da árvore de sua casa até o suposto abrigo dos fantasmas, com um bando de crianças o seguindo, maravilhadas. Um bramido rompeu o silêncio enchendo a todos de medo:

     “VIRAM? VIRAM? A chama se apagou quando eu passei por aqui!”

    Isso causou uma mistura de sensações nas crianças; umas ficaram tensas, outras assumiram uma postura cética, as mais religiosas já faziam sinal da cruz ou coisa que o valha. Expedições foram realizadas mais tarde, com muita cautela, a princípio, mas logo o medo foi perdido e a velha casa comumente era uma fonte inesgotável de inspiração para o líder imaginar jogos e brincadeiras. Mas o que realmente ninguém nunca soube foi que ele assoprou a vela. 
    O homem voltou a si. Agora com uma expressão mais suave continuava a observar a rua e as crianças, brincando, brigando, e o líder em volta, arrumando, ordenando, desfazendo, criando. Decerto não funcionaria sem ele, só pode ser isso, pensou. Na verdade, talvez funcionasse. O problema é que o líder impunha tamanha autoridade que fazia com que os demais sentissem que seu papel ali era essencial, insubstituível. Resolveu deixar a janela. Muito provavelmente não se via pessoas naquela casa desde o dia fatídico, que fizera os moradores da casa se mudar pra outro estado, então não queria que alguém o visse. Desceu as escadas lisas e tomou o caminho da antiga cozinha em direção aos fundos ajardinados. Um cheiro de mofo dominava quase todos os ambientes. Viu uma pedra cravada no solo que preenchia uma espécie de banheira de concreto e lembrou-se que representava o túmulo do cachorro. Era um cão gordo de raça mista — pastor alemão e alguma outra — que implicava com qualquer um que se aproximasse do portão da casa. Latia sempre que seu dono, o já não mais líder das crianças, apresentava uma de suas crises que começaram na adolescência. Era repentino; o ambiente parecia enegrecer e a atmosfera parecia tombar se misturando aos latidos constantes do fiel cachorro. Enquanto seu amigo afagava-o tentando consolá-lo e a si mesmo, sob o olhar de esperança e desespero de todos. O homem ia com frequência à casa da árvore saber como ele estava. Não é nada demais, sabia. Rezaria por ele. Não pode ser assim. Uma semana antes havia pegado com ele um livro, vinha para discutir quando soube que ele havia sido internado. Os olhos lacrimejantes da mãe pousavam sob o homem, aliás, naquela época um menino apenas, com uma miscelânea de sentimentos. O menino ia para fora e sentava-se na base da árvore a observá-lo das alturas, punha a mão na face e a arrastava até os cabelos, semelhante ao que fazem as personagens de novelas quando enfrentam um problema. Dali da calçada ao hospital e do hospital ao velório. As lembranças o perseguindo implacáveis. O vulto de memória se arrastando até ali onde estava agora, olhando por uma última vez a casa. Não havia nada, somente as lembranças. As lembranças e o inspecionar da árvore que só o poderia acompanhar até que ele cruzasse a esquina e passasse a casa assombrada com uma certeza, como um sussurro de piedade da árvore: a vela fora assoprada.

domingo, 1 de julho de 2012

Estações


Explode intenso, descompassado
Acompanhado de uma chama, a paixão
Pr'aqueles que amavam
Começara o verão

Perdia cor, desbotava
Respeitando o tempo, seu dono
Pr'aqueles que ainda amavam
Começara o outono

Encolhia-se frígido
A completar seu ciclo eterno
Pr'aqueles que amavam
Começara o inverno

Reflorescia abrilhantado
Marcando o início de nova era
Pr'aqueles que amavam
Começara a primavera

A prolongar a constante do amor
Até que batam ainda corações
À maneira dos antigos
Unindo em dois espíritos várias estações

Dentre todas o estado d'alma
O qual em todas se reflete
Se ao contínuo desvirtua-se
A amar não mais compete

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Resoluções de ano novo

Um breu dominava a ruela, embrulhando os característicos trajes brancos de festividades de fim de ano numa escuridão sombria. O caso era que, em plena passagem de ano, havia problemas com a energia e os técnicos foram chamados para resolver o problema. Mas o problema maior era que os técnicos não estavam conseguindo resolver o primeiro problema. E os ponteiros avançavam impiedosamente em direção ao número doze simbolizando uma aparente mudança extraordinária. Isso causava grande aflição nos moradores de uma área pobre financeiramente, mas muito rica em suas festividades locais. Estavam todos se preparando, ensaiando sorrisos plásticos para usarem com parentes distantes e vizinhos com quem geralmente não têm uma relação constante. Mas é dia de festas, dizem, dia de deixar qualquer coisa de lado e tentar ser amigável com todos. Somando-se ao fato da total falta de luz, a chuva caía torrencialmente como que limpando o mundo para uma grande festa. Retirando os vestígios de mais um ano. Isso aborrecia imensamente as pessoas, que, arrumadas para a ocasião, esperavam uma coisa excepcional acontecer; por motivos desconhecidos. Impacientes e desapontados com o fato de a ausência de luz atrapalhar um suposto acontecimento que faria jus à suposta data de significado importante, sentavam-se ou deitavam-se em seus aposentos, esperando que os técnicos trouxessem o brilho que lhe faltavam.
Eram casinhas pequenas, grudadas, com a predominância da cor cinza, deixando o ambiente quase monocromático. Por pouco não era chamada de comunidade carente. Mas lá era, de fato, um lugar muito pobre. Um espaço muito visitado por candidatos a vagas na política em tempos de eleição. Eles apareciam na maior cara de pau, perambulavam o bairro acariciando a cabeça de crianças que corriam na rua descalças, invadindo lares e lançando promessas de melhoramentos, tudo isso na presença de câmeras. Nos primeiros instantes da aurora, viam-se mulheres e homens ainda com marcas de sono estampadas na fronte saindo de casa para enfrentar o mundo e dele tirar uma pequena fração e retornar para casa. Marcas de uma rotina desgastante.
Já era quase meia noite, e muitos já haviam perdido as esperanças de ter um bom término de ano. Homens trabalhavam arduamente para iluminar as famílias. José, um senhor morador duma casa antiga que possuía uma árvore do seu tamanho na calçada, não agüentava mais esperar e resolveu telefonar ao serviço de energia para tirar satisfações. Numa burocracia que lhe é característica, a de atendente apenas conseguiu lhe embriagar gerúndios e finalizar a ligação com votos de felicidade. José sentou-se, nada podendo fazer, e fitou o horizonte da varanda com um olhar de quem muito viu e viveu. Personifica em seus olhos e em sua aparência um povo que muito lutou para obter uma luz no fim. Uma luz no fim do ano. Um povo que muito trabalha, mas pouco tem. Um povo que se apega a superstições, mitos, simpatias para, de alguma forma, visualizar uma vida nova, boa. Um povo que se decepciona quando não vê seus números em uma cartela de um jogo milionário, mesmo já prevendo que não seria dessa vez. Um povo que já muito encarou a chuva e a considera uma companheira indesejável de batalhas infindas. Um povo que anseia por luz. Somente a luz. A chuva obedecia piamente à lei da gravidade, reprimindo a alegria. Acabando com a festa. Precipitando o final. A chuva caía num momento onde todos deveriam estar festejando, fazendo resoluções para o ano vindouro, como, por exemplo, não ter muitas dívidas; parar de beber; comprar um carro etc.
À meia noite a luz subitamente preenche o ambiente trazendo o alívio e um resquício de esperança de um bom início de ano. Fazem tantas resoluções e no fundo eles só querem resoluções.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Do outro lado do mármore

Sentou-se melancolicamente defronte a rocha metamórfica de cor estonteante, possuidora de beleza inigualável e portal de um grande, se não único, mistério do universo. Poderia somente imaginar com seu órgão pensante extremamente limitado o que há pós-mármore. Desviou o olhar atenciosamente para os diversos existentes, pensando profundamente no inevitável fim. Tudo termina numa singela placa não muito adornada, felizmente, talvez; indicando o sempre curto período do que se chama existência.
    Passou a, insensivelmente, utilizar o tato numa tentativa ilógica de adentrar os confins do desconhecido em busca de uma resposta confortadora. No entanto, o que percebeu foi somente a impossibilidade de continuar fisicamente o que pretendia; daí a irracionalidade: pelo fato de, mesmo que pouco, saber qualquer coisa sobre dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. É automaticamente despertada em sua mente a inutilidade de tal ação, uma vez que há tempos tinha largado os fardos, quase que completamente, do sentimentalismo.
   Apelou agora ao metafísico. Implorou para que, em vista da condição de estar sozinho, obtivesse o que comumente seria chamado de sinal... Mas, espere aí, estava cercado de seres inanimados. Seria esse o sinal? Seria o sinal a falta de sinal? Pois, não havendo uma resposta, pode-se desesperadamente deduzir que aqueles que o faziam companhia não estavam de todo inconscientes. Ou somente seria ele indigno de uma resposta? Mais provável. Com uma face inexpressiva, continuou a observar o quadrado, o pequeno espaço que nos reduzirá a pó. Olhando fixamente, viu que o azulejo possuía uma aparência macabra, para ajudar. Se ao menos o morto pudesse saciar sua sede de conhecimento... Mas este andava frio ultimamente.
    Procurando ser o menos cético possível, tentou desligar-se das suposições de total falta de consciência ao ser — e do ser — eternamente aprisionado do outro lado do mármore. Imaginou que qualquer um faria isso, ao menos uma vez, até o mais descrente dos ateístas. Começou a ficar enervado por falta do que sentir, do que pensar, pelo tédio que a cor sombria proporcionava. Após as inúmeras tentativas falhas de saber o que poderia haver do outro lado do mármore, concluiu que só o descobriria quando finalmente tivesse cruzado ou tropeçado na linha tênue que separa a existência e pós-mármore, seja lá o que for. E não importa o quão bom o viajante tenha sido, ninguém escapa do pós-mármore, mesmo que, ele pensava, se você o for, tenderá a ir primeiro de encontro com o supracitado.
    Levantou-se, finalmente. O vento parecia estar mais violento ou qualquer coisa do clima do lugar agitava as moléculas do seu corpo. A ausência de som começou a perturbá-lo. Começou a caminhar encarando os moradores da escuridão, ou o que sobrou deles, ao menos: seus nomes. Pois, no final, é o que nos sobra, ainda desgastado pelas cruéis ações da natureza e da memória alheia.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Índios

Monstruosas construções de concreto erguiam-se com o rápido deslizar do veículo em direção ao coração da floresta de pedra. Via-se um amontoado de pessoas em pontos estratégicos voltados ao entretenimento. Era uma noite de sábado, e não se era de esperar coisa diferente disso. Haveria um grande espetáculo teatral e musical com participação de grandes personalidades da televisão numa arena montada de grandes amplitudes na praia. Enormes cartazes com os rostos dos atores estampados escondiam as deficiências estruturais da cidade. Não poderiam decepcionar o público que muito raramente se dirigia àquele local da região, ainda mais numa ocasião como aquela. O policiamento estava se reforçando cada vez mais com o avançar do ponteiro em direção ao horário em que se daria início a apresentação. E isso aliviou Antônio, de dentro de seu carro preto de última geração que ainda percorria a lisa estrada que dividia os arranha-céus da paisagem praiana; estava com dificuldades em encontrar uma vaga e já havia se distanciado muito do local do show, teria de andar um bocado.
  O vento frio balançava as folhas dos coqueiros e palmeiras que enfeitavam a calçada, esgueirando-se para dentro do carro acusava a temperatura local. Antônio já ouvira bastante falar num tal de proletariado, mas seria a primeira vez que veria seus hábitos para diversão. E pelo que viu até o momento, achou muito estranho. Qual seria o prazer que aquelas pessoas teriam em se embriagar ao som de músicas carnavalescas? Não entendia. Mas ali era um local onde as classes se misturavam e a divisão era apenas ideológica. E, por mais que odiasse isso, para alcançar seu destino, teria de passar pelo povo. Finalmente encontrou um lugar para estacionar o carro, a umas três quadras do espetáculo. Pegou seus documentos e dinheiro e se retirou do resquício do seu mundo para entrar numa outra realidade. Embora desabituado com o barulho, admirou a vista natural em contraposição às verticais construções humanas. Ajeitou o paletó e guardou o caríssimo relógio dentro do bolso interno, já percorrendo os olhares em busca de uma patrulha policial. Tinha lá seus quase cinquenta anos, mas mantinha a aparência esbelta. Seus cabelos prateados esvoaçavam com o soprar gélido do vento noturno. Caminhou em linha reta pela calçada que margeava a areia fina da praia, escutando os distantes estrondos da água marinha ao colidir nas rochas. Por um longo momento, arrependeu-se de estar lá. Era o único vestido de maneira elegante, observou; em meio a uma multidão quase despida. Observou os transeuntes caminhando pela calçada e, devido à enorme quantidade de pessoas, invadindo as áreas de ciclovia. Observou os vendedores ambulantes sentados em cadeiras com seus produtos estendidos pelo chão ou em tábuas improvisadas. Achava repugnante e os comparava a índios. Continuou sua trajetória, já um tanto cansado. Ignorava mendigos que empunhavam seus chapéus, sentados em árvores e murmurando algo. Passava reto, sem dó. Não sentia piedade daquele povo, desprezava-os.
  Quase chegando a seu destino, ouviu uma melodia intensa e doce entrar pelas suas vias auditivas, elevando-o a um estado de paz de espírito. Era um som agradável que parecia sair de uma flauta. Misturou-se a baques suaves de tambor e, logo, a zunidos de metal de um instrumento que não reconhecera. Parecia que estava havendo uma apresentação musical no centro da calçada, pois logo avistou um grupo de pessoas cercando o local de onde saía tão sublime som instrumental. Apertou o passo na ânsia de ver quem provocava tão boa sensação com muita habilidade manual. Aproximou-se o suficiente, mas continuou andando, fingindo desinteresse. Pela multidão, havia brechas pelas quais ele poderia ver o grupo que produzia com maestria aquilo que o deixava em êxtase. Contornou o grupo, com seu ar de arrogância, tendo de passar pela avenida movimentada. Olhou para esquerda, podendo ver quem punha em música as coisas mais exuberantes do mundo. Avistou uma pequena índia vestida em trapos sujos, morena, olhos estreitos, cabelos longos, lisos e pretos como a noite. Fazia movimentos rápidos que consistiam em passos para frente e para trás, em perfeita sintonia com a música que saía da flauta que segurava com firmeza. Logo atrás dela, via-se uma mulher muito parecida com a menina, de aproximadamente trinta anos. Trajava um vestido de um tecido grosso, branco e também sujo; ela quem tamborilava. Ao seu lado, um menino, um pouco mais velho que a jovem flautista, mas incrivelmente parecido com ambas. Uma outra mulher andava em círculos segurando uma vasilha, em sinal de arrecadação de dinheiro; parou o braço em frente a Antônio, que a olhou com dureza. A família indígena parecia estar muito cansada, mas ainda assim trabalhavam com perfeição. Antônio hesitou por um momento, mas logo se viu sendo distanciado do som e dos pequenos músicos, retornando à calçada e pondo-se a caminhar em direção a entrada das grandes arquibancadas. Mais pessoas se juntavam à multidão para ver os artistas indígenas em sua apresentação angelical, e Antônio logo os perdeu de vista.
   Chegou, finalmente. Retirou cinquenta reais da carteira e deu ao bilheteiro, que lhe forneceu o ingresso para a encenação indígena da fundação da cidade.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Vagando, ponho-me a divagar devagar.

No cotidiano observo situações ora hilariantes, ora trágicas, mas sempre procuro as enxergar sob um viés literário. Informações e pensamentos perpassam minha mente ocupando lugar em ordem de chegada, mas logo organizando-se em ordem de relevância. Ou seja, nada lembro. Nada importa. Uma viagem de ônibus logo pode virar um texto cujo gênero é conhecido como conto, ou crônica. Um diálogo em um ambiente muito comum também etc. Nada que seja digno de Machado de Assis ou outro grande gênio da literatura, mas uma tentativa de produzir algo para parecer inteligente: quem nunca.

Proponho uma viagem ao mundo das ideias. Platão (427-347 a.C), filósofo, tinha uma teoria um tanto que interessante que dizia respeito ao mundo das ideias. Para ele, existiam o mundo das sombras e o das ideias. Estamos no mundo das sombras, ou aparências, com as sensações que advêm de ninguém menos que os sentidos, porém alcançamos o conhecimento muito além do plano das opiniões e sensações. Adentramos no mundo das ideias ao deixar o fardo das impressões. Ocorre essa transição, segundo Platão, pelo método da dialética, que é, basicamente, a "limpeza" lógica que podemos fazer de uma ideia. O método da discussão, onde se utiliza uma peneira racional para isentá-la de impurezas. Mesmo não sendo o foco do blog, pode-se, casualmente, aparecer alguns textos que atualmente estão arquivados na seção polêmicas. Não que eu espere grandes debates acalorados, até porque nem leitores suficientes para isso eu espero. Convido-os para, comigo, sentarem-se, colocarem a mão no queixo e dirigir um olhar de sábio à tela do computador e depois continuar vagando e divagando nesse imenso mar de conhecimento, ou impressões, que é a internet.