segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Do outro lado do mármore

Sentou-se melancolicamente defronte a rocha metamórfica de cor estonteante, possuidora de beleza inigualável e portal de um grande, se não único, mistério do universo. Poderia somente imaginar com seu órgão pensante extremamente limitado o que há pós-mármore. Desviou o olhar atenciosamente para os diversos existentes, pensando profundamente no inevitável fim. Tudo termina numa singela placa não muito adornada, felizmente, talvez; indicando o sempre curto período do que se chama existência.
    Passou a, insensivelmente, utilizar o tato numa tentativa ilógica de adentrar os confins do desconhecido em busca de uma resposta confortadora. No entanto, o que percebeu foi somente a impossibilidade de continuar fisicamente o que pretendia; daí a irracionalidade: pelo fato de, mesmo que pouco, saber qualquer coisa sobre dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. É automaticamente despertada em sua mente a inutilidade de tal ação, uma vez que há tempos tinha largado os fardos, quase que completamente, do sentimentalismo.
   Apelou agora ao metafísico. Implorou para que, em vista da condição de estar sozinho, obtivesse o que comumente seria chamado de sinal... Mas, espere aí, estava cercado de seres inanimados. Seria esse o sinal? Seria o sinal a falta de sinal? Pois, não havendo uma resposta, pode-se desesperadamente deduzir que aqueles que o faziam companhia não estavam de todo inconscientes. Ou somente seria ele indigno de uma resposta? Mais provável. Com uma face inexpressiva, continuou a observar o quadrado, o pequeno espaço que nos reduzirá a pó. Olhando fixamente, viu que o azulejo possuía uma aparência macabra, para ajudar. Se ao menos o morto pudesse saciar sua sede de conhecimento... Mas este andava frio ultimamente.
    Procurando ser o menos cético possível, tentou desligar-se das suposições de total falta de consciência ao ser — e do ser — eternamente aprisionado do outro lado do mármore. Imaginou que qualquer um faria isso, ao menos uma vez, até o mais descrente dos ateístas. Começou a ficar enervado por falta do que sentir, do que pensar, pelo tédio que a cor sombria proporcionava. Após as inúmeras tentativas falhas de saber o que poderia haver do outro lado do mármore, concluiu que só o descobriria quando finalmente tivesse cruzado ou tropeçado na linha tênue que separa a existência e pós-mármore, seja lá o que for. E não importa o quão bom o viajante tenha sido, ninguém escapa do pós-mármore, mesmo que, ele pensava, se você o for, tenderá a ir primeiro de encontro com o supracitado.
    Levantou-se, finalmente. O vento parecia estar mais violento ou qualquer coisa do clima do lugar agitava as moléculas do seu corpo. A ausência de som começou a perturbá-lo. Começou a caminhar encarando os moradores da escuridão, ou o que sobrou deles, ao menos: seus nomes. Pois, no final, é o que nos sobra, ainda desgastado pelas cruéis ações da natureza e da memória alheia.

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