Um breu dominava a ruela, embrulhando os característicos trajes brancos de festividades de fim de ano numa escuridão sombria. O caso era que, em plena passagem de ano, havia problemas com a energia e os técnicos foram chamados para resolver o problema. Mas o problema maior era que os técnicos não estavam conseguindo resolver o primeiro problema. E os ponteiros avançavam impiedosamente em direção ao número doze simbolizando uma aparente mudança extraordinária. Isso causava grande aflição nos moradores de uma área pobre financeiramente, mas muito rica em suas festividades locais. Estavam todos se preparando, ensaiando sorrisos plásticos para usarem com parentes distantes e vizinhos com quem geralmente não têm uma relação constante. Mas é dia de festas, dizem, dia de deixar qualquer coisa de lado e tentar ser amigável com todos. Somando-se ao fato da total falta de luz, a chuva caía torrencialmente como que limpando o mundo para uma grande festa. Retirando os vestígios de mais um ano. Isso aborrecia imensamente as pessoas, que, arrumadas para a ocasião, esperavam uma coisa excepcional acontecer; por motivos desconhecidos. Impacientes e desapontados com o fato de a ausência de luz atrapalhar um suposto acontecimento que faria jus à suposta data de significado importante, sentavam-se ou deitavam-se em seus aposentos, esperando que os técnicos trouxessem o brilho que lhe faltavam.
Eram casinhas pequenas, grudadas, com a predominância da cor cinza, deixando o ambiente quase monocromático. Por pouco não era chamada de comunidade carente. Mas lá era, de fato, um lugar muito pobre. Um espaço muito visitado por candidatos a vagas na política em tempos de eleição. Eles apareciam na maior cara de pau, perambulavam o bairro acariciando a cabeça de crianças que corriam na rua descalças, invadindo lares e lançando promessas de melhoramentos, tudo isso na presença de câmeras. Nos primeiros instantes da aurora, viam-se mulheres e homens ainda com marcas de sono estampadas na fronte saindo de casa para enfrentar o mundo e dele tirar uma pequena fração e retornar para casa. Marcas de uma rotina desgastante.
Já era quase meia noite, e muitos já haviam perdido as esperanças de ter um bom término de ano. Homens trabalhavam arduamente para iluminar as famílias. José, um senhor morador duma casa antiga que possuía uma árvore do seu tamanho na calçada, não agüentava mais esperar e resolveu telefonar ao serviço de energia para tirar satisfações. Numa burocracia que lhe é característica, a de atendente apenas conseguiu lhe embriagar gerúndios e finalizar a ligação com votos de felicidade. José sentou-se, nada podendo fazer, e fitou o horizonte da varanda com um olhar de quem muito viu e viveu. Personifica em seus olhos e em sua aparência um povo que muito lutou para obter uma luz no fim. Uma luz no fim do ano. Um povo que muito trabalha, mas pouco tem. Um povo que se apega a superstições, mitos, simpatias para, de alguma forma, visualizar uma vida nova, boa. Um povo que se decepciona quando não vê seus números em uma cartela de um jogo milionário, mesmo já prevendo que não seria dessa vez. Um povo que já muito encarou a chuva e a considera uma companheira indesejável de batalhas infindas. Um povo que anseia por luz. Somente a luz. A chuva obedecia piamente à lei da gravidade, reprimindo a alegria. Acabando com a festa. Precipitando o final. A chuva caía num momento onde todos deveriam estar festejando, fazendo resoluções para o ano vindouro, como, por exemplo, não ter muitas dívidas; parar de beber; comprar um carro etc.
À meia noite a luz subitamente preenche o ambiente trazendo o alívio e um resquício de esperança de um bom início de ano. Fazem tantas resoluções e no fundo eles só querem resoluções.