domingo, 22 de janeiro de 2012

Índios

Monstruosas construções de concreto erguiam-se com o rápido deslizar do veículo em direção ao coração da floresta de pedra. Via-se um amontoado de pessoas em pontos estratégicos voltados ao entretenimento. Era uma noite de sábado, e não se era de esperar coisa diferente disso. Haveria um grande espetáculo teatral e musical com participação de grandes personalidades da televisão numa arena montada de grandes amplitudes na praia. Enormes cartazes com os rostos dos atores estampados escondiam as deficiências estruturais da cidade. Não poderiam decepcionar o público que muito raramente se dirigia àquele local da região, ainda mais numa ocasião como aquela. O policiamento estava se reforçando cada vez mais com o avançar do ponteiro em direção ao horário em que se daria início a apresentação. E isso aliviou Antônio, de dentro de seu carro preto de última geração que ainda percorria a lisa estrada que dividia os arranha-céus da paisagem praiana; estava com dificuldades em encontrar uma vaga e já havia se distanciado muito do local do show, teria de andar um bocado.
  O vento frio balançava as folhas dos coqueiros e palmeiras que enfeitavam a calçada, esgueirando-se para dentro do carro acusava a temperatura local. Antônio já ouvira bastante falar num tal de proletariado, mas seria a primeira vez que veria seus hábitos para diversão. E pelo que viu até o momento, achou muito estranho. Qual seria o prazer que aquelas pessoas teriam em se embriagar ao som de músicas carnavalescas? Não entendia. Mas ali era um local onde as classes se misturavam e a divisão era apenas ideológica. E, por mais que odiasse isso, para alcançar seu destino, teria de passar pelo povo. Finalmente encontrou um lugar para estacionar o carro, a umas três quadras do espetáculo. Pegou seus documentos e dinheiro e se retirou do resquício do seu mundo para entrar numa outra realidade. Embora desabituado com o barulho, admirou a vista natural em contraposição às verticais construções humanas. Ajeitou o paletó e guardou o caríssimo relógio dentro do bolso interno, já percorrendo os olhares em busca de uma patrulha policial. Tinha lá seus quase cinquenta anos, mas mantinha a aparência esbelta. Seus cabelos prateados esvoaçavam com o soprar gélido do vento noturno. Caminhou em linha reta pela calçada que margeava a areia fina da praia, escutando os distantes estrondos da água marinha ao colidir nas rochas. Por um longo momento, arrependeu-se de estar lá. Era o único vestido de maneira elegante, observou; em meio a uma multidão quase despida. Observou os transeuntes caminhando pela calçada e, devido à enorme quantidade de pessoas, invadindo as áreas de ciclovia. Observou os vendedores ambulantes sentados em cadeiras com seus produtos estendidos pelo chão ou em tábuas improvisadas. Achava repugnante e os comparava a índios. Continuou sua trajetória, já um tanto cansado. Ignorava mendigos que empunhavam seus chapéus, sentados em árvores e murmurando algo. Passava reto, sem dó. Não sentia piedade daquele povo, desprezava-os.
  Quase chegando a seu destino, ouviu uma melodia intensa e doce entrar pelas suas vias auditivas, elevando-o a um estado de paz de espírito. Era um som agradável que parecia sair de uma flauta. Misturou-se a baques suaves de tambor e, logo, a zunidos de metal de um instrumento que não reconhecera. Parecia que estava havendo uma apresentação musical no centro da calçada, pois logo avistou um grupo de pessoas cercando o local de onde saía tão sublime som instrumental. Apertou o passo na ânsia de ver quem provocava tão boa sensação com muita habilidade manual. Aproximou-se o suficiente, mas continuou andando, fingindo desinteresse. Pela multidão, havia brechas pelas quais ele poderia ver o grupo que produzia com maestria aquilo que o deixava em êxtase. Contornou o grupo, com seu ar de arrogância, tendo de passar pela avenida movimentada. Olhou para esquerda, podendo ver quem punha em música as coisas mais exuberantes do mundo. Avistou uma pequena índia vestida em trapos sujos, morena, olhos estreitos, cabelos longos, lisos e pretos como a noite. Fazia movimentos rápidos que consistiam em passos para frente e para trás, em perfeita sintonia com a música que saía da flauta que segurava com firmeza. Logo atrás dela, via-se uma mulher muito parecida com a menina, de aproximadamente trinta anos. Trajava um vestido de um tecido grosso, branco e também sujo; ela quem tamborilava. Ao seu lado, um menino, um pouco mais velho que a jovem flautista, mas incrivelmente parecido com ambas. Uma outra mulher andava em círculos segurando uma vasilha, em sinal de arrecadação de dinheiro; parou o braço em frente a Antônio, que a olhou com dureza. A família indígena parecia estar muito cansada, mas ainda assim trabalhavam com perfeição. Antônio hesitou por um momento, mas logo se viu sendo distanciado do som e dos pequenos músicos, retornando à calçada e pondo-se a caminhar em direção a entrada das grandes arquibancadas. Mais pessoas se juntavam à multidão para ver os artistas indígenas em sua apresentação angelical, e Antônio logo os perdeu de vista.
   Chegou, finalmente. Retirou cinquenta reais da carteira e deu ao bilheteiro, que lhe forneceu o ingresso para a encenação indígena da fundação da cidade.

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